De Origem à Inspiração: Minha Jornada pelo Equador com a República del Cacao
Por: Daniella Lea Rada – Chef Executiva de Confeitaria no Signia by Hilton Atlanta e Chef Aliada da República del Cacao
Há momentos na carreira de um chef que mudam para sempre a forma como você vê um ingrediente.
Recentemente, tive o privilégio de viajar ao Equador com a República del Cacao. O que começou como uma viagem para aprender mais sobre o chocolate, terminou se transformando em uma lição muito mais profunda sobre as pessoas, as comunidades e as histórias que estão por trás dos ingredientes que utilizamos todos os dias.
Antes desta viagem, o chocolate da República del Cacao era um produto excepcional em que eu confiava plenamente na minha cozinha. Depois de percorrer as montanhas de Cayambe, conhecer as mulheres de Puliza, caminhar entre as árvores de cacau na Amazônia e presenciar a transformação do grão até se converter em chocolate, compreendi que cada saco de chocolate carrega consigo uma história muito maior do que o próprio ingrediente. Ao longo deste percurso, houve uma mensagem que se tornou evidente: o grande chocolate começa com grandes pessoas.




Dia 1: Compreendendo o coração que há por trás do chocolate
Nosso primeiro dia começou próximo à Linha Equatorial, no Relógio Solar de Quitsato, onde aprendemos como a localização geográfica única do Equador cria as condições ideais para a agricultura e a produção de cacau. No entanto, a experiência mais marcante foi nossa visita à comunidade indígena de produtores de leite de Puliza. Essa comunidade, liderada por mulheres, fornece o leite utilizado no Chocolate Branco 31% da República del Cacao, o mesmo chocolate que mais tarde inspiraria minha sobremesa.
Fomos recebidos com uma tradicional Pambamesa, uma refeição compartilhada preparada com ingredientes cultivados pela própria comunidade. Compartilhar batata criolla, melloco, milho, queijo fresco e tortillas de tiesto me lembrou que algumas das refeições mais memoráveis são construídas a partir da simplicidade, da generosidade e da conexão. Também tivemos a oportunidade de provar os famosos biscoitos de Cayambe e aprender sobre o agave, uma planta que prospera em condições desafiadoras. Sua resiliência me pareceu um reflexo das comunidades que conhecemos durante toda a viagem.
Mais tarde, subimos pelas montanhas para conhecer de primeira mão a atividade leiteira. Visitamos a estufa da dona Lucrecia, aprendemos sobre os programas de desenvolvimento comunitário e observamos o trabalho diário necessário para manter essas fazendas.
Um dos momentos mais memoráveis foi tentar tirar leite de uma vaca junto com a presidente da comunidade. Enquanto meus esforços mal conseguiram encher uma pequena xícara de leite, ela esteve prestes a encher um balde inteiro. O que mais me impactou não foi o processo em si, mas as pessoas que estão por trás dele. Estas mulheres se levantam antes do amanhecer, trabalham incansavelmente, sustentam suas famílias e investem no futuro de seus filhos. Em pé naquela montanha, compreendi que o leite utilizado no chocolate branco da República del Cacao representa muito mais do que um ingrediente: representa oportunidades, resiliência e comunidade.
Antes dessa viagem, o Chocolate Branco Equador 31% era simplesmente um produto que eu gostava de usar. Depois de conhecer as mulheres que tornam possível sua produção, ele se tornou uma história.
Dia 2: Seguindo o rastro do cacau em direção à Amazônia
O segundo dia nos levou dos Andes até a Amazônia equatoriana, onde seguimos a jornada do cacau até a sua origem. No caminho, fizemos uma parada em um centro de acopio de cacau para observar os processos de fermentação e secagem. Ver milhares de grãos de cacau serem transformados cuidadosamente antes de chegar a uma fábrica me permitiu valorizar ainda mais a dedicação e o conhecimento necessários para produzir um ótimo chocolate. Também aprendemos sobre as iniciativas de Comércio Justo (Fair Trade) e o impacto que geram nas comunidades locais. Os produtores nos falaram sobre a importância da educação, das oportunidades
e a preservação das tradições agrícolas para as futuras gerações. Um dos momentos mais memoráveis da viagem chegou quando embarcamos em uma canoa para navegar pelo rio até a comunidade de Mirador. O percurso pela selva amazônica nos convidou a desacelerar e apreciar o ambiente que nos rodeava.
A comunidade nos recebeu com uma refeição preparada com ingredientes locais e compartilhou demonstrações de artesanatos tradicionais elaborados com fibras naturais e corantes de origem vegetal. Seu respeito pela terra e seu compromisso em preservar os saberes transmitidos de geração em geração se mostraram verdadeiramente inspiradores.
Por fim, chegamos à plantação de cacau. Para uma chef confeiteira, ver o cacau crescendo em seu ambiente natural foi uma experiência quase surreal. Ainda mais significativo foi descobrir que essa plantação produz o cacau utilizado no Chocolate Negro Amazonía 75% da
República del Cacao, um chocolate que utilizamos regularmente em nosso programa de confeitaria.
Caminhar entre os cacaueiros, cercados por bananeiras, baunilha, canela, gengibre e uma grande variedade de plantas, revelou a extraordinária biodiversidade da Amazônia. Provar o cacau fresco direto da cabaça foi outra experiência inesquecível. A polpa doce que envolve o grão tinha notas frescas, tropicais e um sabor completamente diferente do que a maioria das
pessoas associam com o chocolate.
No final do dia, compreendi que cada pedaço de chocolate começa sua história muito antes de chegar a uma fábrica. Começa com os agricultores, os ecossistemas e gerações de conhecimento compartilhado.





Dia 3: Do grão ao chocolate
Nosso terceiro dia nos levou à fábrica da República do Cacao em Quito, onde seguimos a jornada do cacau desde o grão até se transformar em chocolate acabado. Desde o momento em que chegamos, ficou claro que a maior força da empresa são as pessoas. O orgulho, a paixão e o compromisso que cada colaborador demonstrava refletiam os mesmos valores que tínhamos visto nas comunidades produtoras de leite e cacau.
Percorremos todo o processo de produção: desde a recepção e a torrefação dos grãos de cacau até a refinação, conchagem, temperagem e embalagem do chocolate. Embora a tecnologia fosse impressionante, o que mais se destacou foi a experiência e o conhecimento por trás de cada etapa. A qualidade não é alcançada apenas graças às máquinas; ela é alcançada graças às pessoas que sentem um profundo compromisso com o seu trabalho.
Um aspecto que me impressionou especialmente foi o compromisso da empresa em minimizar o desperdício e aproveitar ao máximo o valor de cada grão de cacau.
Após o tour pela fábrica, desfrutamos de uma degustação de confeitaria preparada pela Chef Corporativa de Confeitaria, Andrea, e tivemos a oportunidade de conhecer mais sobre a missão da República del Cacao através da CEO, Paulina, e da equipe diretiva.
Para aquele momento da viagem, já havia um tema em comum que se repetia constantemente. Seja conversando com produtores de leite, agricultores de cacau ou colaboradores da fábrica, todos compartilhavam o mesmo senso de orgulho e responsabilidade.
A República del Cacao não produz apenas chocolate; preserva tradições, apoia as comunidades e cria oportunidades. Para mim, esse é o verdadeiro segredo por trás da marca.
O dia concluiu com um lindo jantar na Casa de Tilo, onde os chefs Max e Cécile nos receberam em sua casa. Rodeados de jardins, excelente comida, música e uma conversa agradável, foi mais um lembrete de que a hospitalidade e a conexão humana estão no
coração da cultura equatoriana.
Dia 4: Transformando a inspiração em uma sobremesa
Nosso último dia em Quito nos deu tempo para refletir sobre tudo o que havíamos vivido. Enquanto eu caminhava pela cidade, as lembranças dos dias anteriores voltavam repetidamente à minha mente: as mulheres de Puliza carregando leite montanha abaixo, o passeio de canoa pela Amazônia, os cacaueiros crescendo sob o dossel da floresta e os colaboradores da fábrica compartilhando com orgulho o trabalho que realizam.
Para aquele momento, eu já sabia exatamente o que queria que a minha sobremesa representasse. No centro da criação estava o Chocolate Branco do Equador 31% de República del Cacao. Depois de visitar a Puliza, o sabor adquiriu um significado completamente novo. Cada mordida me
ele lembrava das montanhas, da comunidade e das mulheres cuja dedicação torna este chocolate possível.
A Amazônia também desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento da sobremesa. Suas notas cítricas vibrantes, seus aromas frescos e a extraordinária biodiversidade da região inspiraram sabores que trouxeram frescor e energia à criação final. As próprias paisagens influenciaram a apresentação e a essência emocional da sobremesa.
Trabalhar junto à Chef Corporativa Andréia, foi um dos maiores privilégios desta viagem. Juntas transformamos memórias em sabores e experiências em uma história contada através de uma sobremesa. Cada componente se tornou o reflexo de um lugar, uma pessoa ou um momento vivido durante este percurso.
Enquanto embarcava no meu voo de volta para Atlanta, eu trazia comigo muito mais do que a inspiração para uma nova receita. Eu levava as lembranças das mulheres de Puliza, a beleza das montanhas de Cayambe, os sons da floresta amazônica e as histórias das pessoas que dedicam suas vidas a produzir e transformar este ingrediente extraordinário. Esta viagem aprofundou meu
respeito não apenas pelo cacau, mais também por cada pessoa cujas mãos fazem parte deste processo: desde os agricultores e produtores até os artesãos, as comunidades e os colaboradores da fábrica.
Como chefs, muitas vezes nos focamos no que criamos. Esta experiência me lembrou a importância de honrar também a origem dos nossos ingredientes e as pessoas que tornam possível que eles cheguem até nós.
Antes do Equador, o chocolate era um ingrediente com o qual eu gostava de trabalhar. Depois do Equador, tornou-se uma história. E por trás de cada grande história há pessoas extraordinárias. Por isso, estarei sempre profundamente agradecida
Por: Daniella Lea Rada
Acompanhe o trabalho dele em: @daniella.learada


